FILOSOFIA

FILOSOFIA

A medicina natural pode acrescentar muito no cuidado geral com as crianças, no tratamento das doenças comuns da infância e na manutenção da saúde.



Os métodos naturais como a Homeopatia e o Ayurveda colaboram com uma postura menos materialista e menos imediatista, desencorajando a auto-medicação, o exagero e a falta de bom senso no uso da alopatia.



É possível mudar os hábitos e usar os recursos naturais a fim de construir um estilo de vida mais saudável, sem deixar de lado a prática médica convencional, com suas indicações precisas.

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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Brinquinho? Mas será que ela quer?

A inevitável pergunta da primeira consulta de uma recém nascida menina: Qual a melhor hora para furar a orelhinha? A hora que ela quiser, eu respondo. E aí vejo um olhão arregalado assim ó! Mas como? Mas depois não vai doer mais? Mas se ela for maiorzinha não vai querer deixar... Mas a avó já deu um brinquinho... 

Gente, calma. Vamos por os neurônios para trabalhar ANTES de ir aceitando tudo o que é "protocolado" pela sociedade? 
Nenê menina tem que furar a orelha. 
Nenê menino tem que operar a fimose.
QUEM disse?
Que ditadura é essa? Pensemos...

E bem na hora que começamos a pensar alguém pergunta: mas qual o problema?
Bom, vários. Penso assim: um recém nascido precisa de muitos cuidados. Limpar o bum bum, a xoxota, o umbigo... cada coisa do seu jeito. E para as meninas de orelha furada, limpar o brinquinho. Girar o brinquinho. Imagina: incomoda, gente. Imagina: que mulher adulta consegue dormir de brinco? Você tira ou não os seus brincos antes de dormir e tomar banho? E você tem uma orelhona, tarimbada já, de adulta. E a bebezinha? Uma micro orelhinha com uma coisa cutucando atrás. Atrapalha sim, atrapalha para dormir e para ela se acomodar nos seus braços na hora de mamar. Fica lá aquele treco cutucando... 

Ah, mas não dói para furar. Quem disse? Todo mundo sabe que dói. Isso é balela! Recém nascido sente dor sim... não é porque o bebê não se comunica de forma verbal que ele não sente dor. Tanto sente que há protocolos nas UTIs e Unidades neonatais para quantificar a dor do bebê que está internado. E mais, não dá um super dó
na hora de colher o exame do pezinho? Que mãe não fica de coração apertado nesta hora? E olha que é um furo só, hein? Um troço totalmente indispensável, e a gente SABE que precisa fazer. Pergunto então, porque que temos que aguentar o nosso coração apertar da mesma forma, para furar a orelhinha? Poque passar por isso? Que convenção é essa tão rígida que algumas mães engolem e, com o maior dó, vão furar as orelhas de suas bebês?

Definitivamente não. Eu não passei por isso. É infinitamente melhor aguentar a indignação das pessoas do que a dor de ver um recém nascido ser agulhado sem necessidade... por vaidade dos adultos, já que a bebezinha  não tem a menor ideia do que é brinco e do porque se furam as orelhas.Não é porque um bebê não articula palavras e nem retruca com argumentos que não podemos perguntar (ao nosso íntimo, que seja) mas será que ela quer

Estão lá na gaveta, os dois pares de brincos que Analu ganhou. A princípio guardados para quando ele completasse um ano... quem sabe eu a levasse a um acupunturista para fazer o furo... E o tempo foi passando... ela está com três anos, linda, de cabelos cacheados, cheio de fitinhas e fivelinhas, ama vestido e tons de rosa... os brincos? Continuam lá. E eu, quando ela quiser, quando ela estiver disposta a sentir duas agulhadas, a levarei para furar as orelhas. E darei muito colo se o choro vier... como sempre fiz, mas tranquila e sem aperto no coração, por saber que a escolha foi dela.

(fotos retiradas do google)

terça-feira, 9 de abril de 2013

RELATO DE PARTO DO ANDRÉ


O Andrezinho já está com 6 meses e só agora consegui sentar para escrever o relato de parto. Na verdade, me deu uma vontade súbita de reviver os momentos que me marcaram e me transformaram tanto!
Tanto no parto do André, como no da Analu, tive experiências maravilhosas. Diferentes, mas igualmente intensas. Vocês sabem, o parto da Analu foi um parto natural lindo, hospitalar, sem nenhuma intervenção. Sem anestesia, sem episio. O trabalho de parto durou bastante, mas tudo muito tranquilo, sem pressa, sem desespero. Um verdadeiro nascimento em PAZ.


O parto do Andrezinho foi bem diferente: rápido, intenso, cheio de força e energia e hoje entendo por que.
Mas, vamos contar a estória desde o início.

Analu estava com 1 ano e 3 meses. Tinha acabado de desmamar. Flavio e eu ainda na dúvida, mas cogitando muito de longe, se teríamos um segundo filho ou não. Tínhamos motivos tanto para ter, como para não ter. A decisão estava empatada e nós ainda não sabíamos como desempatar.

Até que em janeiro de 2012, dei falta da minha menstruação. Ela só tinha vindo duas vezes, pois amamentei a Analu até quase um ano. Hummm... frio na barriga, mas mesmo assim, eu me enganando nas contas, demorei para achar que estava mesmo grávida. Deixei passar um tempinho. Nada. Falei para o Flavio, olha, to atrasada. E ele: ah, você tá grávida, mané! E eu: nããaooo... e ele: tá sim, foi aquele dia assim assado, tenho certeza que você errou nas contas. E eu: será? (sem saber o que sentir, tinha uma confusão dentro de mim...) E ele: vai logo fazer um teste de farmácia. E eu fiz. Saí do banheiro chorando adoidado com aquele bastãozinho na mão, entreguei a ele. E ele: ahn? Que que deu? E eu: buáaaaa  E ele: Sil, você tá grávida! Eeeeeeeee! Analu, você vai ganhar um irmãozinhoooo! E eu: buáaaaaa!!!

A notícia veio completamente de surpresa. Eu totalmente desprevenida. A Analu tinha recém parado de mamar, estava começando a andar, eu começando a sentir que a minha vida e meu corpo estavam voltando ao normal e, de repente... tudo volta para traz: barrigão, roupa de grávida, sutiã de amamentação, dedicação, noites em claro... mamá, mamá, tudo de novo... puts, desabei! Fora meu pai, que ainda não estava totalmente recuperado da doença, minha mãe ocupadíssima e estressadíssima, eu dando plantões... socorro! Pirei!

Mas, a alegria do Flavio e o tempo foram me acalmando. Na minha primeira consulta com a obstetra, a Lu Taliberti, (tirei o “doutora” porque somos colegas de faculdade!), chorei, chorei... e ela me acalmou, acalmou... fui tão acolhida, recebi beijos e abraços e parabéns e força!... esta primeira consulta foi essencial para que eu voltasse ao meu eixo e conseguisse ver de novo como é grande o milagre da vida, como é lindo estar grávida, quantas bênçãos que estava recebendo com a chance de ter mais um bebê na minha vida e na nossa família!!!

A consulta com a Lu foi essencial também por causa do tipo de parto. Mesmo no meio da minha confusão uma coisa eu sabia: não queria nem por decreto passar por uma cesária. Nem correr o risco. Por isso procurei a Lu. Sabia que ela ia me entender, não iria de jeito nenhum me tachar de doida por ter escolhido um parto natural para a chegada da Analu.

E assim foi em todo pré natal: as consultas com a Lu cheias de carinho e de um forte apoio ao parto normal. Estávamos em sintonia total: ela entendendo a minha vontade de parir e eu confiando que ela me deixaria parir em PAZ!

E fomos indo! Rapidinho fui entrando em sintonia com a gravidez e com o bebê. As aflições foram ficando para trás e me sentia novamente radiante grávida. A Analu foi crescendo e entendendo que “vai chegar o seu irmão”, que ela rapidinho apelidou de Simão = seu irmão!

Logo no comecinho liguei pra minha querida amiga Aninha para começarmos a fazer aulas de yoga para gestante. Foi uma delícia! Eu, que já conhecia a Aninha de outras aventuras yóguicas (fizemos o primeiro ano de formação com o Pedro Kupfer juntas, em 2007, e logo ficamos amigas) também pedi que ela me doulasse no parto do André. Então, fizemos yoga, cantamos mantras, conversamos muito sobre o parto e tudo isso também ajudou a tornar a gravidez muito mais tranquila!

Em julho, já quaseno terceiro trimestre de gestação, o Flavio foi viajar a trabalho. Assim como na gravidez da Analu, só que desta vez, corríamos o risco dele estar fora no dia do parto... eu não queria nem a pau parir sem marido, apesar de ter o plano B da minha irmã ser minha marida, caso ele não estivesse. Mas não tinha o que fazer, a não ser esperar... nunca que cogitaríamos, nem eu nem ele, de marcar uma cesária para que ele pudesse estar presente. Antes sem marido do que de barriga cortada!

Mas, ele tinha conseguido uma folga para vir a São Paulo na semana da data prevista do parto. Torcíamos e rezávamos para que o Andrezinho colaborasse e nascesse na semana em que o pai dele estivesse presente.

E chegou a 39o. semana. A DPP (40 semanas) era 10 de outubro e dia 29 de setembro o Flavio chegou. Ficaria até dia 8 de outubro. Neste dia já comecei a tomar uma homeopatia para ver se ajudava a engrenar um trabalhinho de parto.

Eu tinha certeza que o Andrezinho não chegaria até a 40o. semana, pois já estava grandão e a Analu tinha nascido de 39 semanas e um dia. Ficamos confiantes. Dia 2 de outubro, meu aniversário, tive consulta com a Lu. O Flavio foi junto. E ela: a barriga está alta hein Sil? Por enquanto tudo quieto. E eu: ai Lu, esse muleque tem que nascer esta semana!!! (ansiedade batendo a mil né?) E ela: bom, posso tentar uma ajudinha aqui... (ai, eu sabia o que era – a famosa e dolorida “dedada” – descolamento de membranas) ain... mas, com meu consentimento, ela fez. Doeu vai, mas nem tanto. Passou logo. Eu queria acelerar um pouco as coisas, fazer esse Andrezinho ficar mais esperto pra vir!!! Fomos confiantes para casa.
Fiz uma festinha de aniversário com a minha família, corri pra lá e pra cá, com aquele barrigão, peguei muito a Analu no colo e ainda demos uma namoradinha! E então....

No dia seguinte, bem cedinho, começaram as contrações! EEEEEEEEE!!! Que legal, que legal, Andrezinho estava a caminho! Continuei tomando a homeopatia para regularizar bastante o trabalho de parto e em 4 ou 5 horas eu já estava em trabalho ativíssimo! Não tinha terminado a manhã ainda e eu já me sentindo parindo, afe, com aquela inquietude, andando para lá e para cá, vontade de fazer cocô.. tipo vamos que vamos!!!
Não eram nem 11 da manhã já ligamos para Lu dizendo que a coisa estava rolando solta! E fomos para o hospital. A Aninha também já estava sabendo e nos encontrou lá.

Cheguei no São Luiz já anunciando que ia parir! Hahahahaha, foi ótimo porque isso já acelerou a burocracia toda. O segurança que fica na porta, todo gentil, me ajudou a descer do carro e me levou até o sofá, disse: pode sentar aqui, vou chamar a enfermeira... e eu: ai moço, obrigado, mas não dá pra sentar não! Hahahahaha ai ai ai ai.... chama logo!

Aí a enfermeira de plantão já me examinou (toda aflita achando que eu ia parir ali mesmo) estava com 8 cm de dilatação, bolsa integra!!! Eeeeeeeee!!! Como me animei!!! Tão rápido!!! Corre, corre pro Centro Obstétrico.

Cheguei lá achando que eu ia só tossir e Andrezinho nascer, mas não foi bem assim. O danadinho estava alto pra chuchu, dilatação total e ele lá em cima. A dor tava pegando, eu fui ficando cansada... já tinha agachado, ficado na posição deitada, sentada, assim, assada e nada... já tava rolando mantra, massagem, carinho, e nada.. e a dor pegando...  neste momento, a Marcia, que tinha sido a parteira da Analu, estava lá na sala ao lado, foi me dar um beijo de boa sorte! Tão legal encontrar pessoas queridas numa hora dessa! Aumenta a sensação de alegria, de festa, de boas vindas e a gente se sente mais revigorada! A Renata, colega de Med ABC também, que fez todos os meus ultra-sons também foi me dar um beijo nesta hora.
Aí, a Lu sugeriu uma raqui. Topei, pensei: me alivia um pouco a dor e esse muleque desce e nasce. Fizeram, tranquilo. Pedi para o anestesista não me deixar totalmente sem dor. Uma dorzinha é boa pra gente perceber a contração e fazer força na hora certa. E assim ele fez. Aí andei, agachei, mudamos do CO para o Delivery Room e o Andrezinho: alto. E eu, cacilda, cadê esse muleque?

Em algum momento a Lu rompeu a bolsa, com meu consentimento, para o menino descer. Pensamos, agora vai, chama o pediatra, eu achando que ia cuspir o muleque. Nada.

Meu!!! Eu comecei a ficar ansiosa. E a Lu... ah a Lu... e a Dani, que estava auxiliando... as duas... numa caaaalllmmaaaa..... calma, Sil, ele deve estar em alguma apresentação diferente, pra demorar tanto para descer, mas o coraçãozinho está ótimo, vamos em frente! E eu dando graças a todos os deuses, Ganesh, Buda, Jesus de ter procurado estas duas lindas para cuidarem da gente! O olhar da Lu me transmitia muita confiança. Em nenhum momento senti que ela titubeava tipo: bora rachar essa barriga antes que o bebê entre em sofrimento, ou faça, cocô na barriga, ou qualquer coisa assim, desse papo de fazer parto normal virar cesárea...

Bom, a coisa foi demorando. Eu ficando cansada. A raqui passou e a dor voltou com tudo. Forte mesmo. Uma dor diferente da do parto da Analu, quase que eu não podia com ela. A Lu sugeriu uma peri contínua e fizemos. Da mesma forma, pedi pro anestesista não me deixar totalmente sem dor. E fiquei feliz com a minha anestesia e mais confiante e com mais força pra continuar.

Em certo momento, a Lu conseguiu palpar direitinho a cabeça do nenê e me disse: ele tá em OS Sil!!! Quer dizer, vai nascer olhando pra cima! (Uma posição anômala, que faz o parto demorar mais, mas que nasce tranquilo mesmo assim).

E vamos que vamos, força boa, coragem, tranquilidade e segurança na minha obstetra, confiança na minha doula, apoio do meu marido, vamos vamos...

Já no finalzinho, vejo meu cunhado entrando no delivery! Hahahahaha como assim??? Ele, que é medico lá do São Luiz, foi só perguntar de mim e a enfermeira puxou ele pra dentro da sala! Hahahaha  nem sei se ele curte essas emoções de parto, mas falei: Aeee Giba, fica a vontade, tá uma festa aqui, já já nasce!

Apesar da demora o clima era de muita festa e muito astral! E vamos lá, mais umas forças e lá estava a cabecinha dele aparecendo! E a Lu: ai Sil, deixa eu fazer uma episio, pequenininha... e eu.. ahn... essa foi a única parte que eu não gostei. Mesmo. Mas eu já estava tão cansada, o Andrezinho já estava tão perto, que deixei. Falei: faz Lu, faz o que precisar que eu quero esse muleque no meu colo!

Então, todo mundo me segurou pelas costas, eu praticamente sentei e  dois segundo depois....  nasceu o Andrezão, olhando para mim, em OS, numa defletida grau 1. Meu, que mulecão!!! Nasceu tranquilex, chorou um pouco e logo se aquietou no meu colo. O Douglas examinou ele ali mesmo e tudo ótimo! Dois minutos e meio depois meu bebezão já estava mamando! Puts! Nasceu com fome, com uma força, parece até que nasceu ensinado!!! Meu menino já mostrando a que veio! Eu não poderia estar mais feliz!!!! Flavio babando, Aninha, Lu, Dani, Douglas, todos vibrando e eu... ahn, que sensação maravilhosa, de amor, de plenitude, de ter posto mais um rebento no mundo! 

AI COMO É BOM PARIR!!!!

Andrezão ficou no meu colo por mais ou menos umas duas horas. Neste tempo ele mamou, foi bastante mimado, se aqueceu e se aquietou. Ganhei muitos e beijos e abraços e parabéns e uma nova festa de aniversário, só que no dia seguinte!

Só depois que toda a equipe já tinha saído e que eu precisava subir para o quarto, ele foi pesado (3580g! uau!) e foi um pouco pro colo do Papai. Minha mãe, como no parto da Analu, foi lá me ver , ficou comigo e me ajudou a bater um belo prato de comida.

E assim foi! Um partaço. Diferente do primeiro, não menos emocionante. Nem mais emocionante. Tive que passar por intervenções, mas nada foi feito sem meu consentimento. Também não fui induzida a nada. Seu eu resolvesse parir sem anestesia, a minha querida obstetra Lu estaria lá, do mesmo jeito, pra me ajudar a parir.

Este foi o ponto mais importante do meu segundo parto – tudo foi diferente (também, pudera, foi uma gestação diferente, um bebê diferente, uma posição diferente, uma equipe diferente. O parto ia ser diferente de qualquer forma) mas tudo que foi feito, foi feito com meu consentimento. Nada foi imposto. Toda a equipe me transmitiu tanta segurança... a equipe e principalmente a Lu, bancou meu parto. Abraçou minha causa. Fui respeitada na minha vontade de parir e de ser eu a protagonista do parto. E o André pode nascer do jeito que ele escolheu, na hora que ele escolheu, com o mínimo de intervenções. Por isso, serei eternamente grata!

“necessário, somente o necessário... o extraordinário é demais!”

A força e a occitocina foram minhas, não me instalaram um sorinho para acelerar o parto, acreditando que a natureza faz acontecer. Ah, se faz! É só a gente não atrapalhar...

Namaste!


terça-feira, 12 de junho de 2012

Pelo direito de opinião e de opção!

Aos meus queridos leitores, deixo aqui reproduzida uma carta aberta à sociedade, redigida pelo Dr. Ricardo Herbert Jones, um obstetra humanizado do Rio Grande do Sul.

O motivo da carta foi a reação arbitrária do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (CREMERJ) à declaração do Dr. Jorge Kuhn na reportagem do Fantástico sobre PARTO HUMANIZADO DOMICILIAR.
A reportagem foi ao ar em 10/06/2012 -

http://globotv.globo.com/rede-globo/fantastico/t/edicoes/v/parto-humanizado-domiciliar-causa-polemica-entre-profissionais-da-area-de-saude/1986583/

A notícia foi publicada ontem no Jornal do Brasil, com afirmações absurdas como: "A denominação de “parto humanizado”, na verdade, mascara o risco a que mãe e bebê estão sujeitos" -

Não se trata apenas de defender um profissional ético e capaz como o Dr. Jorge Kuhn. A reação do Conselho fere o direito de expressão e opinião de qualquer médico e, principalmente, o direito das mulheres escolherem como e aonde querem parir.

O Dr. Jorge e sua equipe me assistiram no parto da Analu. Um parto natural, sem anestesia ou intervenções, por escolha minha, de querer participar ativamente do parto da minha filha. A experiência foi maravilhosa e, apesar de eu ter parido no hospital, também por escolha minha, meu parto me mostrou uma realidade que antes eu desconhecia - o parto domiciliar. Conhecendo pessoas capazes e embasadas cientificamente, como os Dr.Jorge, os pediatras, as parteiras, doulas e outros profissionais humanizados, entendi de uma vez por todas, que o parto domiciliar é SIM uma opção viável e segura. É um direito nosso escolher. Parir em casa não é um oba-oba de gente bicho grilo, que quer inventar. É uma opção que, inclusive, acontece em outros países.

Eu não poderia deixar de me manifestar em defesa do meu médico e da humanização, pois é isso que busco e procuro fazer na minha vida pessoal e profissional.

Por isso, assino embaixo!
 
CARTA ABERTA À SOCIEDADE
por Dr. Ricardo Herbert Jones

Nós, médicos humanistas, enfermeiras-obstetras e obstetrizes, todos os profissionais, entidades civis, movimentos sociais e usuárias envolvidos com a Humanização da Assistência ao Parto e Nascimento no Brasil, vimos através desta presente Carta manifestar o nosso repúdio à arbitrária decisão do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (CREMERJ) de encaminhar denúncia contra o médico e professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) Jorge Kuhn, por ter se pronunciado favoravelmente em relação ao parto domiciliar em recente reportagem divulgada pelo Programa Fantástico, da TV Globo.

Acreditamos estar vivenciando um momento em que nós todos, que atendemos partos dentro de um paradigma centrado na pessoa e com embasamento científico, estamos provocando a reação violenta dos setores mais conservadores da Medicina. Pior: uma parcela da corporação médica está mostrando sua face mais autoritária e violenta, ao atacar um dos direitos mais fundamentais do cidadão: o direito de livre expressão. Nem nos momentos mais sombrios da ditadura militar tivemos exemplos tão claros do cerceamento à liberdade como nesse episódio. Médicos (como no recente caso no Espírito Santo) podem ir aos jornais bradar abertamente sua escolha pela cesariana, cirurgia da qual nos envergonhamos de ser os campeões mundiais e que comprovadamente produz malefícios para o binômio mãebebê em curto, médio e longo prazo. No entanto, não há nenhuma palavra de censura contra médicos que ESCOLHEM colocar suas pacientes em risco deliberado através de uma grande cirurgia desprovida de justificativas clínicas. Bastou, porém, que um médico de reconhecida qualidade profissional se manifestasse sobre um procedimento que a Medicina Baseada em Evidências COMPROVA ser seguro para que o lado mais sombrio da corporação médica se evidenciasse.

Não é possível admitir o arbítrio e calar-se diante de tamanha ofensa ao direito individual. Não é admissível que uma corporação persiga profissionais por se manifestarem abertamente sobre um procedimento que é realizado no mundo inteiro e com resultados excelentes. A sociedade civil precisa reagir contra os interesses obscuros que motivam tais iniciativas. Calar a boca das mulheres, impedindo que elas escolham o lugar onde terão seus filhos é uma atitude inaceitável e fere os princípios básicos de autonomia.

Neste momento em que o Brasil ultrapassa inaceitáveis 50% de cesarianas, sendo mais de 80% no setor privado, em que a violência institucional leva à agressão de mais de 25% das mulheres durante o parto, em vez de se posicionar veementemente contrários a essas taxas absurdas, conselhos e sociedades continuam fingindo que as ignoram, ou pior, as acobertam e defendem esse modelo violento e autoritário que resulta no chamado "Paradoxo Perinatal Brasileiro". O uso abusivo da tecnologia contrasta com taxas gritantemente elevadas de mortalidade materna e perinatal, isso em um País onde 98% dos partos são hospitalares!

Escolher o local de parto é um DIREITO humano reprodutivo e sexual, defendido pelas grandes democracias do planeta. Agredir os médicos que se posicionam a favor da liberdade de escolha é violar os mais sagrados preceitos do estado de direito e da democracia. Ao invés de atacar e agredir, os conselhos de medicina deveriam estar ao lado dos profissionais que defendem essa liberdade, vez que é função da boa Medicina o estímulo a uma "saúde social", onde a democracia e a liberdade sejam os únicos padrões aceitáveis de bem estar.

Não podemos nos omitir e nos tornar cúmplices dessa situação. É hora de rever conceitos, de reagir contra o cerceamento e a perseguição que vêm sofrendo os profissionais humanistas. Se o CREMERJ insiste em manter essa postura autoritária e persecutória, esperamos que pelo menos o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CREMESP) possa responder com dignidade, resgatando sua função maior, que é o compromisso com a saúde da população.

Não admitimos, não permitiremos que o nosso colega Jorge Kuhn seja constrangido, ameaçado ou punido. Ao mesmo tempo em que redigimos esta Carta aberta, aproveitamos para encaminhar ao CREMERJ, ao CREMESP e ao Conselho Federal de Medicina (CFM) nossa Petição Pública em prol de um debate cientificamente fundamentado sobre o local do parto. Esse manifesto, assinado por milhares de pessoas, dentre os quais médicos e professores de renome nacional e internacional, deve ser levado ao conhecimento dos senhores Conselheiros e da sociedade. Todos têm o direito de conhecer quais evidências apoiariam as escolhas do parto domiciliar ou as afirmações de que esse é arriscado – se é que as há.
http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=petparto
Abaixo-assinado PETIÇÃO PÚBLICA POR UM DEBATE CIENTIFICAMENTE FUNDAMENTADO SOBRE LOCAL DE PARTO  www.peticaopublica.com.br

Abaixo-assinado PETIÇÃO PÚBLICA POR UM DEBATE CIENTIFICAMENTE FUNDAMENTADO SOBRE LOCAL DE PARTO
www.peticaopublica.com.br

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

"a medicalização da vida e a cientificação da existência!"

O texto parece bastante complexo, mas lido com cuidado explica muito bem o que é isso!

(Abaixo reproduzo abaixo o texto na íntegra, extraído do site ECOMEDICINA (por sinal, excelente: www.ecomedicina.com.br). O autor, Dr. Paulo Rosenbaum, é médico e foi meu professor na Escola Paulista de Homeopatia. Nem preciso dizer o quanto amava as aulas dele!)

Vivemos em tempos em que o desenvolvimento tecnológico vem ocupando um espaço que não é dele. Tecnologia é muito bem vinda sim, mas devemos ter muita cautela. Olha só quanta coisa acontece por aí, propagandeando saúde e bem estar e na verdade deveriam ser muito bem repensados. Será que é isso mesmo que queremos? Distância, frieza, tanta praticidade assim? E nessas de tecnologia e praticidade, onde fica o instinto materno, o nosso feeling de poder saber o que fazer porque algo aqui de dentro diz que assim é o certo? Será que, por exemplo, mais da metade das mulheres brasileiras não sabem mais parir ? (ainda estou revoltada com os horrorosos 52% de cesarianas no país)... ou será que elas ficam deslumbradas em poder ter um parto tecnológico cheio de "cuidados" que só atrapalham?

Será que às vezes não é bom retroceder um pouquinho? Apelar para o chazinho da vovó, para o peito, o colo, o aconchego, para nossas raízes e tradições?

Quando tive meu parto natural, alguém me disse que tinha sido um parto "indígena". E eu respondi: foi mesmo. Para quem considera a medicina natural um retrocesso, costumo dizer que, em algumas ocasiões, este "retrocesso" é muito bem vindo. É a melhor escolha, é o que melhor sabemos fazer e é o modo de deixarmos que os milagres aconteçam.

Eu não tenho o dom de escrever e conseguir colocar em um só texto como isso me angustia. Mas o Dr. Paulo Rosenbaum tem. E faço destas as minhas palavras. Ele foi perfeito neste texto!

Aproveitem a viagem!

Milagre, antropogenia e cientificismo


A questão da ciência - seus limites e critérios - está sempre voltando à pauta jornalística. Artigos recentes lembraram a perseguição que cientistas americanos vêm sofrendo por acharem resultados que às vezes contrariam expectativas populares no caso de novas evidências surgidas contra a hipótese do aquecimento global.

Há quem ache que a ciência fará milagres. A tradução deste termo nos remete a múltiplos significados etimológicos. Mas o fato é que sempre que um extraordinário acontece, recorremos à palavra. O milagre é, provavelmente, muito mais banal do que supomos. Seriam as marcas de um acontecimento extraordinário, transcendente? A natureza do milagre, vale dizer, seu propósito, é exatamente forçar-nos a admitir que há algo além, muito adiante da curva do insondável. Talvez o que não dominamos, ou nem sonhamos em conquistar: o inexplicável. Exatamente tudo aquilo que nestes estertores de pós-modernidade não nos é mais permitido.
Por isso vê-se necessário explicitar a diferença entre atitude científica e cientificismo. Na inquietude científica, encontramos os autênticos elementos de ética e recato que pesquisas e pesquisadores devem ter: a cadência da humildade, a suavidade mental para admitir que há, inclusive, mais segredos que explicações, o respeito pelo contraditório e inacabado. Enquanto isso, na outra ponta, o cientificismo tornou-se uma seita: adota uma percepção seletiva, determinista, às vezes dogmática e descontextualizada.

O milagre é lugar-comum, porque não é difícil verificar que o comum contém o milagroso. Acontece bem na soleira das nossas portas ou aqui mesmo, dentro de cada organismo. A respiração e as trocas gasosas de captação de oxigênio e eliminação de CO2 (gás carbônico) são milagres que acontecem 31 vezes por minuto. A manutenção da temperatura corporal humana de 36,8 graus (em média), mesmo quando há frio e calor excessivo, também poderia figurar nesta categoria. É a homeostasia - uma excepcional constatação do médico fisiologista Walter Bradford Cannon nos anos 30 - a capacidade de nos manter razoavelmente estáveis em um meio altamente instável. Os pequenos milagres, ou sinais de vida, têm uma constância absurda, e faz bem alguma humildade para não atribuir tudo ao acaso.

Afinal, muitas coisas que estamos tentando curar com a tecnociência nossa de cada dia - entre as quais a destruição da biosfera, a desclimatização do planeta, as patologias provocadas por radiações ionizantes, a explosão de moléstias neurodegenerativas, a farinização e industrialização dos alimentos - são enfermidades artificiais, produzidas por nossas próprias decisões e meios de vida. As modificações que o homem introduz no meio ambiente são conhecidas como antropogenias.

Ao mesmo tempo, deparamos com um avanço das ciências aplicadas, tanto espetacular como perturbador. Há confiança excessiva no domínio frágil, se não perigoso, da própria natureza. Isso se alastra por todos os cantos, da medicina à astronomia, da física à biologia. Mas essa inflação do papel da ciência nas nossas vidas embute um impasse, já que ele não nos torna automaticamente aptos para assumir, nem a compreensão nem a onisciência prometida.
O inconcebível avanço da tecnociência é um marco da capacidade humana, mas seu uso, e preço, pouco razoáveis. Podemos enxergar o tamanho do exagero? O endosso generalizado e acrítico com que passivamente aceitamos todos esses instrumentos e artefatos?

Escancaramos as porteiras da medicalização da vida e fomos um pouco adiante: a cientifização da existência.
Por isso é salutar provocar com o desconhecido. Acreditemos ou não nele, os milagres evidenciam desafios. E o desafio não é só seguir adiante num mundo fraturado, com as tradições, todas elas, em frangalhos. Estamos em plena era dos descartes - prematuros e erráticos - das necessidades subjetivas, do mundo interior, da arte e da filosofia como forma de vida (ou de morte). Mergulhamos no pragmatismo cru, nas hiper-racionalizações que bloqueiam a vida, quando na verdade a vida e a saúde são a regra, as anomalias e as doenças, dolorosas exceções.

O desafio agora é autocrítico, e, eventualmente, considerar retroceder, como fez recentemente a Alemanha ao dizer não às centrais nucleares. E por que não voltar passos atrás? Diante da extensão do incognoscível precisamos reconhecer a extensão da arrogância e a soberba intelectual que nos possuiu. Possuiu-nos frente ao que não sabemos nem controlamos. O homem pode produzir milagres - e o fará cada vez mais - assim a ciência demonstra. E é bom que seja assim.

Vibraríamos todos com tetraplegias curadas com elétrodos, e quando nossos recursos tivessem se esgotado seria absolutamente genial acompanhar exércitos de robôs extraindo água de asteroides congelados. O inconcebível é imaginar um domínio arrogante, que despreza os efeitos colaterais das interferências: aí está a sobrenatural empáfia do cientificismo.

Sempre me interessei por robôs, mas também sempre lamentei que eles, ao menos nas ficções, acabem se insurgindo contra seus criadores: foi assim em 2001, Uma odisseia no espaço, de Arthur C. Clarke, e se repetiu em Eu, robô, de Isaac Asimov. Não é só uma ética duvidosa, em uma palavra, ingratidão, esta das máquinas. As referências são oportunas para mostrar que, tal qual velhos robôs, também podemos nos enganar. É possível até prescindir de atribuir uma autoria ao Cosmos e substituí-la por esse androide mítico chamado tecnologia. Se é essa é a grande revolução do século 21, ficamo-la devendo às próximas gerações.

Paulo Rosenbaum - médico, PhD e pós-doutor pela USP, poeta e escritor

(Artigo publicado no Jornal do Brasil)




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